Há algumas semanas, uma charge vem circulando no Facebook e, ao que parece, criando uma legião de contrários à forma de conceber o conhecimento e os desdobramentos sociais decorrentes do chamado pós-modernismo. A charge é a seguinte:
Deitado: Ai! Você está pisando no meu pescoço!
De pé: Bem, isso é um ponto de vista… Mas alguém poderia dizer que você está tentando me incomodar com o seu pescoço…
De pé: Veja, na condição pósmoderna, nós criamos nossa própria realidade baseando-nos em nossas pré-concepções. Desde então, já não há uma verdade objetiva, nós estamos livres para criarmos nossa própria verdade… Então, perceba, não há certo ou errado, apenas um número infinito de estórias igualmente válidas!
Deitado: Mas você ainda está pisando no meu pescoço.
De pé: Você nunca foi à universidade, não é?
À charge, seguia um comentário: “Pós-modernismo é uma ideologia. E não é a minha”. Fiquei a pensar na validade unilateral da proposta da charge. O que ela traz é o uso de uma epistemologia aplicada a uma agência de poder muito específica: o capitalismo pós-industrial. Mas será mesmo possível limitar o pós-modernismo dessa maneira?
"Deus está morto, Marx também e eu não estou me sentindo muito bem."
Uma das principais características do pós-modernismo é a fuga das estruturas e o empoderamento dos sujeitos. Começando pela arquitetura, atingindo as artes, a filosofia e, daí, alcançando cada vez mais espaço no sociedade, esse modo de conceber o mundo critica a capacidade operativa das teorias de massa, como marxismo ou liberalismo, relativizando os papéis sociais ocupados pelos sujeitos históricos e autonomizando-os como agência fundamental de poder. Ao tirar o foco do Estado, das classes ou da mão invisível da economia, autores como Foucault e Lyotard propõem investigações pormenorizadas, pensando nas microrrealidades e nas relações de poder entre os indivíduos.
Mas também há a conquista do direito de voz por parte de outros povos, vistos como subalternos pela sociedade capitalista. Na retórica marxista, o caminho possível à redenção material do mundo seria a conquista do poder pelo proletariado e, onde esta categoria não tivesse se desenvolvido ao ponto revolucionário, caberia a tutela internacional, o que levaria à outra distribuição sócio-espacial do trabalho, da produção e do consumo (não sejamos ingênuos…) dentro da fraternidade comunista. Portanto, o direito à reivindicação dos povos colonizados seria tutelado por esse discurso. Com o pós-modernismo e a relativização das posições e dos direitos, o ponto de vista do angolano, do indiano, do francês, do brasileiro e do estadunidense são igualmente válidos, suas culturas igualmente aceitas e suas questões igualmente legítimas, com ressalvas. Claro que isso ainda é um espaço a ser conquistado, de luta, combates e debates. O direito de voz não modifica a realidade material, não tira o pé do patrão do pescoço do empregado, mas garante a esse o direito à autodeterminação, frente à sua vida, sua condição social, seu Estado. Não caiamos na retórica liberal de dizer que se passa a garantir ao pobre o direito de comprar uma Ferrari, não é isso. É, antes, o caminho para a conquista efetiva de sua autonomia, sem tutela à direita ou à esquerda.
Não se trata de negar a realidade e sim de aceitar a luta!
O Pós-Modernismo pode ser usado como retórica para a legitimação da exploração, como discurso niilista frente a um mundo sem sentido, como chorumela de “nasci na época errada”. Mas pode ser também uma ferramenta para afirmação de identidades múltiplas e legitimação de sujeitos a quem durante muito tempo se privou o direito de voz.
Assim como o liberalismo se dizia emancipador, no século XIX, ao oferecer aos indivíduos mobilidade social através do trabalho e do dinheiro, em vez da posse de terras e do título nobiliárquico conseguido através do nascimento, e o marxismo reivindicava para si tal categoria, por oferecer ao homem o domínio dos meios de produção e, portanto, do mecanismo fundamental da dinâmica social; o pós-modernismo oferece-se ao estudo e autonomia dos povos, individuos ou sociedades, subalternos na estrutura capitalista; à mobilização social nos microespaços de poder e à legitimação de conhecimentos particulares, regionais. Os estudos pós-coloniais compartilham em grande parte essa premissa. Ainda assim, como o liberalismo levou também à soberba estratificação social, o marxismo à opressão pela esquerda, o pós-modernismo pode ser usado como recurso à dominação, como na charge. Tudo tem dois lados, duas serventias.
Então, acredito que se pensarmos, como na charge, que o marxismo é uma ideologia, precisamos ter em mente que que, assim como a realidade que o conceito caracteriza, ele próprio é múltiplo, dado a várias utilidades. Edward Said discorda da postura particularista de Foucault, por exemplo, aventando ser necessário perceber o particular incluído num conjunto mais amplo. Ainda assim, Said reconhece a voz desse particular como legítima. Não se trata, portanto, de negar a realidade, dizendo que todos são iguais, têm os mesmos direitos e estão fadados à felicidade. Trata-se de o negro, o pobre, a mulher, o homossexual, o descolonizado, o excluído entender a si mesmo como um indivíduo portador de autonomia legítima, de vontades pessoais que se envolvem e se tranformam no decurso social, mas, antes de tudo, possuídor de direitos sobre si, sem ter que posicionar-se necessariamente a favor ou contra a causa operária, o capitalismo, a religião: suas opções e posições são múltiplas.
Concordando com Said, penso que não se deve alienar o particular frente ao todo: cada individuo, ou grupo, ou sociedade, encontra-se em relação a outros e inserido numa lógica global capitalista, na qual há esferas religiosas e vários movimentos autônomos reivindicando para si a legitimidade da condução desse todo. Ainda assim, as opiniões, direitos e deveres desse individuo são legítimas, suas verdades autênticas e sua luta verdadeira. Note-se a interrelação entre a agência individual e a social, que não permite que a situação chegue a um relativismo no qual tudo é possível e nada tem sentido: são duas formas que se comunicam e se constroem e, cada verdade, cada cultura, cada luta, adquire sentido nesses contextos e são eles que as legitimam dentro do conjunto. Não estamos falando de um bloco do eu sozinho, mas de blocos conjugados em disputa. E o primeiro passo para a transformação social é acreditar que ela é possível, que a voz da favela e do campo são portadoras das verdades que aflingem àquelas populações e, a partir daí, arregaçar as mangas.
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