Duas discussões, nessa
semana, me chamaram a atenção: o texto de Keila Grinberg, da coluna Em Tempo,
no site Ciência Hoje, e o de Aurélio
Munhoz, na seção Sociedade do site Carta
Capital. Ambos os autores tratam do sistema brasileiro de Educação, embora o
façam de diferentes maneiras. Munhoz foca seu texto “Estão acabando com o magistério” na desvalorização da categoria, na difícil aplicabilidade da “recomendação”
do Ministério da Educação (MEC) de um piso salarial docente de 1.451 reais/40
horas semanais de trabalho e, eixo de seu artigo, no desinteresse dos jovens
pela profissão docente. Já o “Disciplina com sentido” de Grinberg dá continuidade
à discussão levantada no mês passado (já que a coluna é mensal) ao fechamento
da História na academia e à necessidade de os cursos de História produzir um
campo de conhecimento voltado para toda a sociedade, com “razão de ser”, em resposta
à produção ensimesmada encontrada contemporaneamente.
“Estão acabando com o
magistério”. Acostumados com os constantes apontamentos acerca das fragilidades
da educação brasileira, das péssimas condições de trabalho docente, má
remuneração e todo o desconforto, desrespeito e violência que muitos professores
sofrem em sala de aula, muitos leitores (como eu) devem ter visto o título e
imaginado que se tratava de mais uma reflexão “batida” sobre um problema que
ninguém encara. E, de certa forma, é isso também. Mas o texto de Munhoz traz
mais dados, ele aponta que apenas 2% dos estudantes brasileiros de ensino médio
têm como primeira opção cursos superiores ligados à docência, mostra que entre
2001 e 2006 houve uma expansão de 65% dos cursos de licenciatura e, em
contrapartida, as matrículas subiram apenas 39%. Ainda segundo o autor, esses
dados refletem num problema estrutural: o déficit de professores com formação
adequada para a Educação Básica, no Brasil, é superior a 710 mil profissionais.
Num esforço por buscar
culpados, o Munhoz clama que “não se diga que a culpa pelo problema é apenas
dos governantes e legisladores que prometem – e nunca cumprem – posicionar a
Educação como sua prioridade. A imprensa, o setor privado e a sociedade adotam
rigorosamente a mesma atitude (MUNHOZ, site)”. Assim, à imprensa cabe a irresponsabilidade na
condução dos debates sobre educação, dando lugar a informações “curiosas” e
medíocres, ao revés de subsidiar um espaço sério para discussões acerca dos
problemas e levantamento de soluções; o setor privado, embora se defina como
vanguardista no ensino brasileiro, conduz à mercantilização da educação e
exploração do professor, mais pressionado pela lógica capitalista que o seria
no setor público; e a sociedade, que se rende à lógica do capital
desestimulando seus filhos a seguir carreira docente em função de profissões
mais rentáveis e de mais status,
omitindo-se do processo de educação e negando-se a exigir melhoras no tocante à
profissão.
“Disciplina com sentido”
é uma das primeiras indagações de muitos estudantes que iniciam o curso de
História. E muitos não vencem esse primeiro obstáculo. Para que serve a
História? Muitas vezes a pergunta soa retórica ou reflexiva, caindo na dura
realidade da escola ou na vazia “formação de cidadãos”, que pouca gente sabe
como fazer e, dos que sabem, a maioria prefere teorizar sobre a realizar de
fato. Keila Grinberg discute a concepção da disciplina História e seu caráter
científico, associando-a à necessidade de cursos de pós-graduação strictu sensu em Ensino de História. Muitos
dos leitores da coluna do mês passado se posicionaram afirmando que a
degradação da profissão se deve aos baixos salários, motivo do desinteresse em
especialização em Ensino de História. A autora argumenta, entretanto, que os
salários dos professores de Matemática e Química, por exemplo, são idênticos
àqueles da área de História e, nem por isso, essas disciplinas deixaram de
ocupar-se com o ensino e o estabelecimento de pós-graduações nessa área. Além
disso, a formação de professores de História é extensa e, em concursos
públicos, o cargo é um dos mais procurados:
No
concurso público para professor de história em Curitiba em 2007 havia 1.052
candidatos para 141 vagas; em Belo Horizonte, em concurso para professor da
educação básica em 2010, a relação candidato-vaga em história foi de 38,02
(enquanto em língua portuguesa foi de 34,42 e em ciências e biologia, de
26,77). E continuamos sem mestrados profissionais na nossa área (GRINBERG, site).
E mais, acredito que em
muitos cursos de História, sobretudo das instituições públicas, a licenciatura
não seja o foco. É comum um certo desdém de por parte de muitos professores
universitários diante de estudantes que “fazem só licenciatura”, enquanto aqueles que cursam apenas o bacharelado
são vistos como “bravos corajosos”, que buscam o mais particular da profissão,
embora seja também o que lhes garanta menor entrada no mercado de trabalho. Mas
aqui entra outra questão: História, ou licenciaturas no geral, servem apenas
para dar aula?
Na minha formação
acadêmica, tive oportunidade de desenvolver projetos de extensão/ensino e de
pesquisa. Na extensão e no ensino, ocupei-me da História local e seus desdobramentos
em sala de aula, propondo analisar a história do Brasil a partir dos fatos,
imaginários e discussões locais, ou seja, pensando a “História do Brasil
republicando acontecendo nas ruas de Viçosa”. Esse trabalho rendeu uma cartilha
sobre história de Viçosa e suas implicações no cenário nacional e muitas aulas
ministradas em escolas públicas e particulares daquela cidade, além de
exposições sobre a história de Viçosa. Na pesquisa, trabalhei com história da
África e Indígena, pensando a necessidade de pesquisas nesses temas a fim de
subsidiar a aplicabilidade das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que exige o
ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena na Educação Básica.
Além disso, tive a oportunidade de fazer estágio em um museu, Casa de Arthur
Bernardes, guiando visitas e promovendo a divulgação do conhecimento histórico
local; e no desenvolvimento de pesquisas para a escrita de um livro
institucional sobre a Comissão Permanente de Vestibular e Exames e a história
dos processos seletivos da UFV. Como se pode notar, todas essas atividades
excedem os limites da escola e, nem por isso, prescindem da formação em
licenciatura.

Estudantes preparando material para exposição sobre história local: dando sentido à disciplina.
Entretanto, ainda somos
formados segundo uma lógica ao mesmo tempo capitalista e marxista: por um lado,
o conhecimento é visto como produto para consumo e, para ser de fato produzido,
precisa estar atrelado a centros de pesquisa acadêmicos, o que garante ao
trabalho uma espécie de selo de garantia, como o acompanhamento de uma sigla
universitária junto à assinatura do autor (como tem no final deste texto!), a
publicação de livros em editoras universitárias e a participação em congressos
que já tenham, pelo menos, umas três ou quatro edições. Além disso, o salário do
profissional que cumpre esses requisitos é muito mais atrativo que aquele do
professor de Educação Básica. Por outro lado, a educação é vista como
resistência, como luta de classes e, assim, produzir para o mercado e não para
a escola é um sacrilégio. Pobre do estudante que propuser, em algum Centro
Acadêmico de História, Geografia ou Ciências Sociais, a criação de empresas
juniores: será taxado como liberal, que busca a lógica do mercado em detrimento
da emancipação pela educação. Só que seus críticos se esquecem de que a
sociedade não se resume à escola e que educação não diz respeito apenas ao
aspecto formal, regimental e circunscrito às paredes da instituição.
Pensando na
diversificação da atividade do graduado em História e em outros atrativos além
da sala de aula, gostaria de fazer um breve relato de uma experiência que tive
em julho de 2011. Com essas ideias de que a educação deve servir à emancipação
social, mas que não precisa se fechar na escola e na distância frente à
realidade, que faz da História “mais uma disciplina sem sentido”, propus um trabalho
prático, junto a uma comunidade na cidade de Poconé-MT. O trabalho, integrante
das atividades desenvolvidas pela equipe da Universidade Federal de Viçosa no
Projeto Rondon, da qual fui integrante, consistia em instrumentalizar
estudantes do ensino médio de uma determinada escola para tornarem-se guias de
turismo no Pantanal mato-grossense, associando história, cultura e natureza em
favor do desenvolvimento da atividade turística naquela cidade.
Poconé, cidade
localizada na baixada cuiabana, estado do Mato Grosso, é a primeira cidade do
Pantanal, sentido norte-sul, onde está a famosa placa indicando o início da
Transpantaneira. Entretanto, o potencial da cidade para captação de turistas é
mínimo: os viajantes passam por lá, sem gastar nada na cidade que, reduzida a
atividade da mineração Beripoconé, deixou de oferecer oportunidades para a
juventude, que passa a envolver-se com drogas (e o consumo tem aumentado na
cidade) ou migra para Cuibá, rumo a chances de trabalho. Considerando esse
cenário e minha formação em História, a proposta consistiu em um minicurso
teórico-prático: na primeira parte, e utilizando todos os conhecimentos
adquiridos ao longo da graduação, desde a noção de documento até preservação
patrimonial, busquei fomentar reflexões acerca do papel da criação da ideia de
natureza, o que caracteriza uma paisagem como bela em oposição a outra, por
exemplo: por que o pantanal é classificado como beleza e a paisagem da caatinga
como problema? Tentei mostrar a construção social dessas imagens e sua transformação
ao longo do tempo, sua patrimonialização e a necessidade de proteger e explorar
tal cenário. Entrando nas discussões acerca dos pontos positivos e negativos do
ecoturismo, na necessidade de conhecimento histórico para real apropriação do
espaço pela população de Poconé (visto que o Pantanal tem sido ocupado por
corporações do setor de turismo, atribuindo à população da região papeis
secundários nesse processo) e na efetividade do conhecimento para geração de
renda e trabalho, fizemos uma visita guiada à transpantaneira, com o apoio da
secretaria municipal de turismo e meio ambiente e de guias de turismo locais.

Transpantaneira: exemplo de atividade na qual o conhecimento em História pode gerar emprego e renda, fora da escola.
Foi uma atividade
curta, com duração de uma manhã e uma tarde, mas muito produtiva, já que nos
permitiu redimensionar a validade do conhecimento acadêmico em História e seu
uso social fora das universidades para além da dicotomia marxista/capitalista.
A formação oferecida em licenciatura foi ímpar nessa atividade e, como um
projeto, tal proposta poderia virar uma empresa de consultoria para
empreendimentos turístico sustentáveis e preservação e manutenção de bens
patrimoniais, tendo em vista a geração de renda, divulgação histórica e
desenvolvimento cultural da população. Portanto, o que chamo a atenção é para a
necessidade de pensar fora do quadrado, de propor ideias novas utilizando o
conhecimento adquirido e permitindo-se ir além daquilo que somos ensinados a
fazer: dar aula, e ponto.
Finalizando, penso que
as discussões de Munhoz e Grinberg sejam muito pertinentes, sobretudo no mundo
em que precisamos reinventar nossas atividades a fim de não cairmos no vazio da
falta de oportunidade. Há muito o que fazer, mesmo para os licenciados que, por
vezes, parecem enxergar apenas a sala de aula como mercado de trabalho. Os
concursos públicos são uma realidade atrativa para muita gente, mas se é para
pensar em dinheiro, muito há que ainda não foi feito e que pode render um bom
trocado. Centros de pesquisa, divulgação científica, pontos de cultura,
consultorias de turismo e patrimônio, elaboração de projetos para prospecção de
recursos para gestão de bens patrimoniais junto a prefeituras, organização e
gestão de programas culturais, como museus e galerias, geração de conhecimento
histórico aplicado ao planejamento estratégico de empresas... há um filão à
espera de desbravadores. Cabe a nós trocarmos a viseira por visão panorâmica, à
universidade abrir-se ao compromisso social que vá além da educação formal e a
todos o exercício da criatividade.