quinta-feira, 20 de junho de 2013

Tomando lado: política e protestos no Brasil de agora

Thiago Henrique Mota

Texto publicado na quarta-feira 19, no perfil do autor no Facebook.

Entre domingo e ontem havia muito barulho e muitas opiniões bem fundamentadas sendo apresentadas e discutidas por aqui (nem todas, claro). Ainda ontem e hoje tenho percebido que os debates estão apartados: aqueles que perderam (ou nunca tiveram) foco e "se cansaram", e aqueles que tentam estabelecer um foco e pautas políticas sérias. Mais do que isso, percebi um certo silêncio (claro que há enxurradas de postagens, contra a Dilma, contra o Aécio Never, contra o Lula, contra o Alckmin e os alckimistas...). Mas as propostas reais e os embasamentos críticos estão menores. 

Particularmente acho isso muito bom. Acredito que as pessoas que contribuíram com ideias na segunda-feira hoje estão refletindo sobre os rumos do movimento e dos protestos. Precisamos pensar e deixar de lado a miopia liberal que valoriza a democracia e a inclusão social, mas é contra as cotas socioeconômicas nas universidades e contra o Bolsa Família (vi um meme engraçado ontem. Dizia: canta Geraldo Vandré e diz Fora Dilma - retardado). O problema que eu e muitos havíamos apontado no domingo, na segunda-feira... está aí: a direita radical querendo cooptar os protestos sociais e esquerdistas, nublando o cenário político e despolitizando as massas. Um cartaz que diz "basta de corrupção - intervenção militar já" é, no mínimo, emblemático disso tudo. O sim ou não ao pacifismo, o sim ou não à agressividade, o sim ou não aos "coxinhas" (não conheço a gíria - se for uma -, talvez por isso tenha achado o termo inusitado) são temas de debate. Acho que as pessoas estão pensando antes de falar - ou postar. 

 Charge que tem circulado pelos perfis no Facebook

Acredito que queiramos todos protestos pacífico no sentido de não valorizar a violência (e não inibir as pessoas de se expressarem). Mas não pacifista, reformista ou reacionário. É necessário ser agressivo nas demandas, nas pautas e na efetividade da ocupação dos espaços (reais e simbólicos). E precisamos, com urgência, deixar de ser tucanos e descer do muro. Tomar lados nas propostas. Não dá pra fazer alianças com Deus e com o Capeta. Não dá pra defender direitos sociais e ser contra cotas. Não dá pra ir pra rua e pedir interferência militar. O vazio que se criou, uma vez que o Movimento Passe Livre claramente não deu conta de preencher todo o espaço formado, está sendo preenchido com pautas que se anulam e que anularão toda a efervescência das massas. 

Um movimento apartidário? Ok, desde que isso signifique que grupos, instituições, partidos e pessoas possam se representar e ter voz: todos, não apenas um. Isso é democracia. Um movimento anti-partidário? Não, pois isso significa um consenso burro, despolitizado e fascista (juntos somos mais, como a ideia do conjunto de gravetos que juntos não se quebram e são usados da maneira que couber àqueles que deles de apropriarem). Precisamos de pautas concretas, posturas políticas e, sobretudo, cuidado com tudo que parece ser bom e revolucionário, mas é o mais reacionário que há. 

Estamos vivendo um protesto social de fomentação esquerdista, que luta por direitos sociais - passe livre no transporte público - e não contra o governo Dilma. Aliás, é da Dilma o projeto que destina 100% do royalties pra Educação (uma das grandes bandeiras nacionais nos protestos). Foram nos últimos dez anos (e não tenhamos receio de falar: nos governos Lula e Dilma) que a pirâmide social brasileira sofreu mudanças, alargando a classe média, alargando as classes A e B (de forma mais moderada) e reduzindo as classes D e E, de pobres e miseráveis. 

Em Viçosa, foi formada a organização social "Viçosa que queremos", que congrega vários movimentos da sociedade civil organizada para debater os rumos dos protestos e demandas políticas e sociais no âmbito local.

O program de Cotas não tem que acabar: tem que ser expandido. O bolsa família não tem que acabar: tem que ser expandido. O que tem que acabar é o subsídio aos bancos, os empréstimos milionários à iniciativa privada a juros mais baixos que a taxa SELIC... A luta pelo Ensino Fundamental e Médio tem que ser feita nos municípios e Estados, e isso não anula as medidas do governo federal, como cotas e auxílios. É preciso se posicionar e, se estamos nas ruas, é porque nossa democracia se fortaleceu nos 10 anos de governo Lula e Dilma. Como já disse antes, quero que as reformas sociais se tornem maiores. E quero Dilma presidenta.

Reflexões sobre os objetivos dos protestos

Texto publicado no perfil do autor no Facebook, na segunda-feira 17 de junho.

Thiago Henrique Mota

Antes de ir pra rua, construir a #ViçosaQueQueremos, gostaria de deixar claro que não luto contra as políticas públicas e os projetos sociais do executivo federal, expressos na pessoa da Presidenta Dilma. Foram várias as conquistas que possibilitaram a emergência da manifestação que agora vivemos. 

Milhares de brasileiros têm, hoje, condições de vida muito melhores que tinham há dez anos. A universidade pública cresceu. Hoje, brancos, negros e índios têm acesso ao ensino superior na mesma proporção que compõem na população das unidades federais. o bolsa família trouxe grande independência às mulheres do interior e minou a política do coronelismo, além de dinamizar economias locais e retornar o investimento para o Estado. 

Cotas e bolsas não são esmolas e menos ainda favores. São direitos reconhecidos em todo o mundo preocupado com justiça social e com seus erros históricos. Veja a Alemanha, com a ferida aberta do nazismo e engajada na inclusão social de todos os estratos que lhe compõem o povo. Não, eu não luto contra isso. Luto contra a corrupção do executivo federal, estadual e municipal. Luto contra o legislativo tendencioso e que não nos representa. Luto contra a mídia que nos manipula. Luto contra o judiciário que se acha acima das leis (é proibido proibir, TJ-MG, e na Copa Minas vai pra rua). 


Manifestação de protestos em Viçosa, em favor dos direitos à cidade e aos serviços públicos de qualidade no município. Foto: Márcio Duarte.

Quero um país justo, solidário. Não quero ser o governo e não luto por um partido. Luto pelo direito de ter um governo que sirva o povo, que trabalhe por suas demandas, que promova suas causas. Não luto contra o governo Dilma, que, embora aquém do desejado, investe na educação que lhe compete (o nível superior, uma vez que o ensino fundamental é responsabilidade do município e o Médio dos Estados). Que isentou os produtos da cesta básica dos impostos federais (e não teve adesão da iniciativa privada, que aumentou seu lucro em vez de reduzir os preços). Que subsidiou o transporte público, que encontrou possibilidades para o barateamento da luz em Minas. 

Não luto contra um executivo federal inclusivo. Exijo dele mais responsabilidades e, sobretudo, que feche as pernas que estão arreganhadas para a Fifa. Mas luto por respeito e pelo respeito local, pela gestão dos estados, pela punição dos mensaleiros, contra o extremismo religioso da bancada evangélica...


Hoje, só temos condições de sair às ruas porque nos foi mostrado que o Brasil pode ser belo, mas queremos que seja maravilhoso.